
De onde se sentava poderia cair facilmente para partir todos os ossos daquele que julgava ser o seu corpo.
Caíria, partir-se-ia. Ele haveria de aparecer, porque aparecia sempre. Ele haveria de a recolher como sempre recolhia. E haveria de a aconchegar até que a dor amainasse. Ele haveria de se preocupar, como sempre se preocupava.
E no entanto, não seria suficiente. Não seria capaz de provocar em si dor que igualasse a revolta de não compreender este abominável mundo novo. Não poderia haver nele preocupação tão grande que ofuscasse a perplexidade de saber que ele não podia partir nem tão pouco ficar. Saber que ele não podia partir nem tão pouco ficar (completamente).
Resignada a não sacrificar os seus ossos por uns instantes de aconchego naquela ilusão, puxou as pernas e sussurrou para dentro de si: “Mãe, esta não é a minha luta. Esta não é a minha luta”.
MC


(Source: tarkowski)

(Source: hypsterfashionlove)

Ilustração de Pedro Fernandes
(http://p3.publico.pt/cultura/exposicoes/3407/vida-recortada-de-pedro-fernandes)